terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Educação Tradicional na África



Quando fui nomeado membro do Conselho Executivo da Unesco, atribuí-me o objetivo de falar aos europeus sobre a tradição africana enquanto cultura. A coisa era um tanto difícil, já que na tradição ocidental foi estabelecido firmemente que, onde não há escrita, não há cultura. A prova da dificuldade é que, a primeira vez que propus que se considerassem as tradições orais como fontes históricas e fontes de cultura, provoquei apenas sorrisos. Alguns chegaram a perguntar, com ironia, que proveito a Europa poderia tirar das tradições africanas! Lembro-me de haver respondido: "A alegria, que vocês perderam". Talvez pudéssemos acrescentar hoje em dia: "Uma certa dimensão humana, que a civilização tecnológica moderna está prestes a fazer desaparecer".
O fato de não possuir uma escrita não priva a África de ter um passado e um conhecimento. Como dizia meu mestre, Tierno Bokar: "A escrita é uma coisa e o saber é outra. A escrita é a fotografia do saber, mas ela não é o saber em si. O saber é uma luz que está no homem. É a herança de tudo o que nossos ancestrais puderam conhecer e que nos transmitiram em germe, exatamente como o baobá, que já está contido em potência em sua semente".
Evidentemente, este conhecimento herdado e transmitido oralmente pode desenvolver-se ou estiolar-se. Desenvolve-se onde existem centros de iniciação e jovens para receber a formação. Perde-se sempre que a iniciação desaparece.
O conhecimento africano é imenso, variado. Con­cerne a todos os aspectos da vida. O "sábio" não é jamais um "especialista". É um generalista. O mesmo ancião, por exemplo, terá conhecimentos tanto em farmacopéia, em "ciência das terras" - propriedades agrícolas ou medicinais dos diferentes tipos de terra - e em "ciência das águas", como em astronomia, em cosmogonia, em psicologia etc. Podemos falar, portanto, de uma "ciência da vida": a vida sendo concebida como uma unidade onde tudo está interligado, interdependente e interagindo.
Na África, tudo é "História". A grande História da vida comporta seções que serão, por exemplo: a história das terras e das águas (a geografia), a história dos vegetais (a botânica e a farmacopéia), a história dos "filhos do seio da terra" (a mineralogia), a história dos astros (astronomia, astrologia) etc. Estes conhecimentos são sempre concretos e dão lugar a utilizações práticas. Na ordem dos conhecimentos, começa-se "por baixo", pelos seres e as coisas menos desenvolvidas ou menos animadas em relação ao homem, para "subir" até o homem.
A terra, considerada o "umbigo" do mundo, é o habitat principal de três tipos de seres. Vale dizer, é o habitat de três modos de manifestação da vida:
1) No fundo da escala, encontramos os seres inanimados, ditos "mudos", dos quais a linguagem é considerada como oculta, sendo incompreensível ou inaudível para o comum dos mortais. É o mundo de tudo o que está contido na superfície da terra (areia, água etc.) ou em seu seio (minerais, metais etc.)
2) Vêm em seguida os seres "animados imóveis". Tratam-se dos viventes que não mudam de lugar. São os vegetais, que podem estender e espalhar seus braços no espaço, mas dos quais o caule ou tronco não pode se mover.
3) Enfim, os "animados móveis", que vão do mais minúsculo animal até ao homem, passando por todas as classes de animais.
Cada uma dessas categorias encontra-se subdividida em três grupos:
1) Entre os inanimados mudos, encontramos os inanimados sólidos, os inanimados líquidos e os inanimados gasosos (literalmente: "fumegantes").
2) Entre os animados imóveis, encontramos os vegetais rasteiros, os vegetais trepadores e os vegetais de sustentação vertical, que constituem a classe superior.
3) Os animados móveis compreendem os animais terrestres (entre os quais os animais invertebrados, como os vermes, e os animais vertebrados), os ani­mais aquáticos e as aves.
Essas nove classes de seres constituem períodos de ensino específicos, mas que não são forçosamente sucessivos ou progressivos. O ensinamento é com efeito associado à vida e dispensado ao sabor das circunstâncias que se apresentam. Se, por exemplo, uma serpente surgir inesperadamente de uma moita, será a ocasião, para o velho mestre, de proferir uma lição sobre a serpente. Conforme seu auditório seja constituído de crianças ou de adultos, ele orientará diferentemente seu discurso. Ele poderá falar das lendas da serpente, ou dos remédios que podem curar sua mordida. Se ele estiver cercado de crianças, se estenderá de bom grado sobre os perigos da serpente, para que aprendam a proteger-se.
O estudo da terra, das águas, da atmosfera e de tudo que elas contêm enquanto manifestações de vida, constitui o conjunto dos conhecimentos humanos, legados pela tradição. Mas a maior de todas as "histórias", a mais desenvolvida, a mais significativa, é a história do ser humano, que se encontra no topo dos "animados móveis".
É o conhecimento do homem e a aplicação deste conhecimento na vida prática que faz do homem um ser "superior" na escala dos seres vivos. É somente então que se pode dizer que ele esteja no estado de neddaaku (na língua fula) ou de maayaa (no idioma bambara), isto é, no estado de homem completo.
A história do ser humano compreende, de um lado, os grandes mitos da criação do homem e de sua aparição sobre a terra, com o significado do lugar que ele ocupa no seio do universo, o papel que ali ele deve desempenhar - essencialmente um papel axial de equilíbrio - e sua relação com as forças de vida que o rodeiam e que o habitam. Compreende, por outro lado, a história dos grandes ancestrais, os inumeráveis contos educativos, iniciáticos e simbólicos e, enfim, a história propriamente dita, com as grandes tradições das realezas, as crônicas históricas, as epopéias e assim por diante.
A tradição transmitida oralmente é tão precisa e tão rigorosa que se pode, com diversas confirmações, reconstituir os grandes acontecimentos dos séculos passados nos mínimos detalhes, especialmente a vida dos grandes impérios ou dos grandes homens que ilustraram a história africana. (...)
Nas civilizações orais, a palavra compromete o homem, a palavra é o homem. Daí o respeito profundo pelas narrativas tradicionais legadas pelo passado, nas quais é permitido o ornamento na forma ou na apresentação poética, mas onde a trama permanece imutável através dos séculos, veiculada por uma memória prodigiosa que é a característica própria dos povos de tradição oral. Na civilização moderna, o papel substituiu a palavra. É ele que compromete o homem.
Mas é possível afirmar, com toda certeza e nessas condições, que a fonte escrita é mais digna de confiança que a fonte oral, constantemente controlada pelo meio tradicional?
É útil precisar que na África, o lado visível e aparente das coisas corresponde sempre a um aspecto invisível e escondido, que é como a sua fonte ou o seu princípio. Assim como o dia nasce da noite, todas as coisas comportam um aspecto diurno e um noturno, uma face aparente e uma escondida. A cada ciência aparente corresponderá, então, sempre uma ciência muito mais profunda, especulativa - podemos dizer, esotérica -, baseada na concepção fundamental da unidade da vida e da inter-relação, no seio desta unidade, de todos os diferentes níveis de existência. Existe aí um domínio que, por ser menos facilmente explorável, merece ser mais aprofundado e pesquisado, antes que os últimos depositários desta ciência desapareçam.
O conhecimento africano é um conhecimento global, um conhecimento vivo. É por isso que os anciãos, os últimos depositários desse conhecimento, podem ser comparados a vastas bibliotecas, das quais as múltiplas prateleiras estão ligadas entre si por relações invisíveis que constituem precisamente esta "ciência do invisível", autenticada pelas correntes de transmissão iniciática.
Outrora, este conhecimento era transmitido regularmente de geração em geração, mediante ritos de iniciação e pelas diferentes formas de educação tradicional. Esta transmissão regular foi interrompida devido a uma ação exterior, extra-africana: o impacto da colonização. Esta, chegando com sua superioridade tecnológica, com seus métodos e seu ideal de vida próprios, fez de tudo para impor seu próprio jeito de viver àquele dos africanos. Como jamais se semeia em terras não preparadas, as potências coloniais foram obrigadas a "roçar" a tradição africana para poder plantar sua própria tradição.
A escola ocidental começou, portanto, com­batendo a escola tradicional africana e perseguindo os detentores do conhecimento tradi­cional. Foi a época em que todos os curandei­ros foram jogados nas prisões como "charlatões" ou por "exercício ilegal da medicina"... Foi também a época na qual se impedia às crianças de falar sua língua materna, com o propósito de afastá-Ias das influências tradicionais. Isso chegou a tal ponto que, na escola, a criança que fosse surpreendida falando sua língua materna recebia pendurado no pescoço um quadro chamado "símbolo", no qual estava desenhada uma cabeça de burro, e ficava privada do almoço...
Os grãos desta nova tradição, uma vez semeados, cresceram e deram frutos. É por isso que a jovem África, nascida da escola ocidental, tem tendência a viver e a pensar de modo europeu, pelo que não podemos repreendê-Ia, pois é apenas o que ela conhece. O aluno vive sem­pre de acordo com as regras de sua escola.
Na época colonial, a transmissão iniciática, que se fazia outrora às claras e de uma maneira regular, teve que refugiar-se numa espécie de clandestinidade. Pouco a pouco, o afastamento das crianças de suas famílias fez com que os anciãos não encontrassem mais à sua volta jovens suscetíveis de receber os ensinamentos. A iniciação saiu das cidades para refugiar-se no campo. Mas o golpe de misericórdia lhe foi dado por ocasião da independência, com a base de idéias e ideologias exclusivamente européias.
Enquanto o colonialismo, com efeito, suscitava reservas e penetrava pouco no campo, estas mesmas idéias européias, veiculadas por partidos políticos modernos, mobilizaram massas até o mais recôndito vilarejo, de tal maneira que a transmissão quase não encontra mais terreno onde possa ser exercida.
Numa época em que diversos países do mundo, por intermédio da Unesco, consagram recursos financeiros e esforços materiais para salvar os grandes monumentos históricos ameaçados, não seria ainda mais urgente salvar o prodigioso capital de conhecimentos e de cultura humana acumulado, ao longo de milênios, nesses frágeis monumentos que são os homens, e do qual os últimos depositários estão desaparecendo?
Em nossos dias, devido à ruptura na transmissão tradicional, quando um desses sábios anciãos desaparece, são todos os seus conhecimentos que são devorados com ele pela noite. Eu não desejo isso nem para a África, nem para a humanidade. ...
Tradução de Daniela Moreau
(texto originalmente editado em francês como capítulo do livro Aspects de la Civilization Africaine, Paris, ed. Présence Africaine, 1972 e publicado em português na revista THOT n. 64, 1997).
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